Gorillaz: A Montanha Sagrada e o Brasil no Radar

Gorillaz: A Montanha Sagrada e o Brasil no Radar

 

25 anos de uma banda que nunca foi brincadeira

Um quarto de século antes de o mundo se dividir entre entusiastas e céticos dos grupos formados por inteligência artificial, o Gorillaz fincava bandeira numa proposta inédita: criar uma banda com músicos de verdade, representada por personagens de cartoon. Se parecia zoeira no começo, a "banda virtual" formada por um músico britânico e um quadrinista visionário se tornaria um dos fenômenos mais duradouros e artisticamente relevantes da música mundial.

Prestes a completar 25 anos de carreira, Damon Albarn e Jamie Hewlett — os humanos por trás dos personagens 2-D, Murdoc Niccals, Russel Hobbs e Noodle — lançaram em 27 de fevereiro de 2026 seu 9º álbum, "The Mountain", provando que o projeto nunca foi brincadeira. E, como sempre, o Brasil ocupa um lugar especial nessa história.

A Origem de Tudo: Um Apartamento em Londres, 1997

A história do Gorillaz começa antes mesmo do Gorillaz existir. Em 1997, dois colegas de apartamento em Londres descobriram que tinham algo em comum além do endereço: uma profunda aversão às bandas fabricadas pela indústria fonográfica e ao poder onipresente da MTV. Damon Albarn, vocalista do britpop consagrado Blur, e Jamie Hewlett, criador da icônica HQ Tank Girl, resolveram criar exatamente o oposto do que detestavam — só que com um truque genial: a banda seria formada por personagens animados.

O resultado foi o Gorillaz, registrado em 1998 e apresentado ao mundo em março de 2001 com seu álbum de estreia homônimo. Singles como Clint Eastwood, 19-2000 e Tomorrow Comes Today se tornaram clássicos instantâneos. Mais do que isso, o disco combinava influências do Massive Attack, hip-hop, jazz, bossa nova e rock pós-moderno numa mistura tão original que o Guinness World Records não demorou a reconhecê-los como a banda virtual mais bem-sucedida de todos os tempos.

A Construção de um Império Sonoro

Quatro anos depois da estreia, o Gorillaz retornou com Demon Days (2005), disco que consolidou a banda na história da cultura pop com hits como Feel Good Inc., Dirty Harry e Dare. O álbum ampliou o leque de colaboradores — uma marca registrada que só cresceria com o tempo — e cimentou a posição do projeto como algo genuinamente revolucionário.

A beleza conceitual do Gorillaz era que podiam fazer qualquer coisa. Não existia bagagem de gênero para limitá-los. E, acima de tudo, havia a liberdade de um músico tão famoso quanto Damon Albarn emprestar apenas a sua voz a um personagem animado — especialmente nos EUA, onde o Blur era visto como um one-hit wonder e quase ninguém sabia quem Albarn era.

Ao longo de 25 anos, a banda construiu um império: vendeu mais de 27 milhões de discos no mundo, conquistou prêmios Grammy e Brit Awards, fez turnês de sucesso em todos os continentes e, mais importante, construiu uma ponte musical entre gerações, gêneros e geografias. A discografia inclui clássicos como Plastic Beach (2010), um manifesto ambiental com roupagem pop futurista, e chegou ao presente com Cracker Island (2023), que contou com participações de Bad Bunny e Stevie Nicks.

"The Mountain": A Obra Mais Pessoal da Carreira

O nono álbum do Gorillaz nasceu do lugar mais humano possível: a dor da perda. Durante a produção do disco, os pais de Damon Albarn e Jamie Hewlett faleceram com apenas dez dias de intervalo entre si. "O pai de Damon morreu e, dez dias depois, aconteceu o mesmo ao meu pai. E pensamos que os temas do disco estavam se apresentando de modo claro para nós", confessou Hewlett à Rolling Stone.

Em busca de cura e novas perspectivas, a dupla embarcou em duas viagens à Índia — um país que se revelou o cenário perfeito para processar o luto. Albarn chegou a espalhar as cinzas do pai nas águas do rio Ganges. "A Índia é um lugar muito interessante para se estar de luto, porque os indianos têm uma visão muito positiva da morte. A Inglaterra não sabe lidar com a morte", disse o músico em entrevista.

Essa experiência transformou-se na matéria-prima conceitual do álbum. The Mountain — grafado também em devanágari como पर्वत (parvat, "montanha" em hindi) — trata a morte não como fim, mas como transição e renascimento. A espiritualidade hindu, as reflexões sobre reencarnação e o pós-vida não aparecem como adereço exótico, mas como eixo temático de um trabalho denso e, paradoxalmente, luminoso.

Produzido por Albarn ao lado de Remi Kabaka Jr., James Ford e Samuel Egglenton, o disco foi gravado em locações que por si só narram uma odisseia: Studio 13 em Londres, Devon, Mumbai, Nova Déli, Rajastão, Varanasi, Ashgabate, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova York. São 15 faixas cantadas em cinco idiomas — inglês, árabe, hindi, espanhol e iorubá — com colaborações que atravessam gerações e continentes: Asha Bhosle, Asha Puthli, Black Thought, IDLES, Johnny Marr, Anoushka Shankar, Sparks, Omar Souleyman, Trueno e Yasiin Bey, entre outros.

Há também colaborações póstumas — um toque que só o Gorillaz teria a audácia de conceber. A primeira voz que se ouve no disco é a de Dennis Hopper, usando material de arquivo das sessões de Demon Days. "Eu simplesmente pensei: se vamos falar sobre o tema da morte, preciso de algumas pessoas que já morreram para me ajudar a falar sobre isso. De alguma forma, eles sabem mais sobre isso do que eu", disse Albarn. Bobby Womack, David Jolicoeur (De La Soul), Tony Allen e Mark E. Smith também aparecem postumamente.

O resultado foi aclamado pela crítica como um dos melhores trabalhos da carreira da banda. The Mountain estreou em número 1 na parada britânica de álbuns e no número 7 da Billboard 200 americana — tornando-se o terceiro álbum número 1 do Gorillaz no Reino Unido.

A Conexão Especial com o Brasil

Quando Damon Albarn e Jamie Hewlett receberam virtualmente a Billboard Brasil em seu estúdio londrino em janeiro de 2026, um dos temas inevitáveis foi a relação da banda com o público brasileiro — que ambos reconhecem como algo especial.

A última passagem do grupo pelo país, em 2022 no festival MITA, deixou marcas. E a fã base brasileira do Gorillaz tem uma característica que chama atenção dos próprios criadores: é intergeracional. "Talvez não no começo, mas definitivamente nos últimos 15 anos. Fizemos um show de Halloween em San Francisco e foi aí que começamos a notar a quantidade de crianças e adolescentes que vinham com seus pais. E isso é incrível", disse Jamie.

Quando questionado sobre o famoso chamado "Come to Brazil", que fãs brasileiros usam para atrair artistas globais, Damon foi direto: "Para mim, não há lugar que seja longe demais. Tudo parece estar perto. Com certeza o Brasil está sempre no radar."

E o radar está funcionando. Com a The Mountain Tour confirmada para a América do Sul no fim de 2026 — passando por Bogotá, Lima, Assunção e Santiago —, fontes ligadas à produção indicam que o Brasil também está na rota, com apresentações previstas entre novembro e dezembro. Nada oficialmente confirmado ainda, mas os fãs brasileiros têm bons motivos para guardar o coração (e o bolso) em prontidão.

Damon Albarn e a Antipatia pela Tecnologia

Há uma ironia deliciosa no fato de que o homem por trás da banda virtual mais famosa do planeta seja cada vez mais avesso às tecnologias contemporâneas. "Eu não tenho um celular, por exemplo. Não me faz falta, me sinto livre", resume Albarn.

No estúdio, o processo criativo segue rústico e eficaz: "Ainda faço praticamente todas as minhas demonstrações no iPad, só porque era muito bom com o Tascam 4-track e agora sou muito bom com o GarageBand. Eu realmente luto com qualquer outra forma — o Fruit Loops, o Pro Tools, o Cubase. Tudo isso está além de mim."

É essa contradição que define o Gorillaz: uma banda que usa tecnologia de ponta para criar mundos animados e imaginar personagens de cartoon, mas que se ancora num processo artístico profundamente humano, orgânico e, por vezes, até analógico.

25 Anos e Nenhum Sinal de Parar

Em setembro de 2025, para celebrar os 25 anos do projeto, o Gorillaz realizou uma exposição imersiva em Londres — a House of Kong, na Copper Box Arena — seguida de shows históricos onde tocaram na íntegra os três discos mais icônicos da carreira: o debut homônimo, Demon Days e Plastic Beach. Na noite final, em 3 de setembro, o novo álbum The Mountain foi apresentado ao vivo pela primeira vez, numa performance sem celulares, que retomou a ideia de experiência musical completa e presente.

Para Damon, o segredo da longevidade está na organicidade. "Nós fazemos quando estamos prontos. Não nos forçamos. Há um espaço entre os projetos. Cada um tem seus outros interesses. Quando voltamos, acontece organicamente, através de aventuras, conversas e colaborações. Ainda não é fácil, mas não é necessariamente desafiador. É apenas emocionante."

Jamie, por sua vez, passou quase uma década sem ouvir música intencionalmente — "não apertei um botão para ouvir música por dez anos, outras pessoas tocavam para mim" — e agora se prepara para uma imersão total. Comprou 300 CDs selecionados para entrar no que ele chama de seu "bunker".

Há algo profundamente Gorillaz nisso tudo: a ruptura, o silêncio, o retorno. A montanha que se sobe não para chegar ao topo, mas para se transformar na subida.

The Mountain não é apenas mais um disco. É uma declaração de que, depois de 25 anos, Damon Albarn e Jamie Hewlett ainda têm algo urgente a dizer — e que o Gorillaz, esse projeto que nasceu como zoeira e virou patrimônio da cultura pop global, está mais vivo do que nunca.

E o Brasil, como sempre, está no radar.

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